quarta-feira, 1 de julho de 2009

Algo se muere en el alma



Recordo continuamente uma sms que recebi por volta do fim de ano, não sei ao certo qual ano, que de forma peculiar resumia amizade. A quadra natalícia é propensa ao consumo em massa e, nos últimos anos, à troca desmesurada de mensagens. Os minutos que antecedem a efeméride são marcados tipo sinal horário pelo meu telemóvel que apita sms como se não houvesse amanhã. Nunca respondo. Essa mensagem dizia: Os amigos são como as nádegas, merda nenhuma os consegue separar.
Essa pitoresca clareza sobre amizade e estima, recebida mais de uma dezena de vezes nessa mesma noite, ficou cravada na minha memória como se fosse uma daquelas músicas que ouvimos apenas uma vez e passamos dias a trautear contra a própria vontade. Não obstante, inseparáveis só mesmo as nádegas. Os amigos separam-se sempre, inevitavelmente, até mesmo em pensamento.



Há três anos que estou fora de Portugal.
Tenho conhecido muitas pessoas interessantes. E são essas coexistências que dão significado à vida errante que decidi para mim. Experiências que moldam a minha personalidade e desviam o meu caminho daquilo que, imediatamente antes do convívio, julgava certo. Recordações que ficam inscritas no pensamento e que revejo a meu bel-prazer, bastando um aroma, música, silêncio, objecto, paisagem, palavra, frase, gesto, sorriso, fotografia, filme, etc., em jeito de catalisador para me despertar a memória.
Nada é eterno, só o tempo. Servem-me de consolo as reminiscentes vivências que vou coleccionando na minha vida, estupidamente minúscula.
Apenas me revolta a dificuldade que tenho em lidar com a separação, com o inadiável e impiedoso adeus. Em aceitar a passagem, a fase. Em reconhecer a solidão inalienável da condição humana. Em voltar a mim. Em não saber usar instantaneamente as boas recordações.
E revolto-me!
Onde está o Yan Tsen Yuh (Mario), pequeno agitador do universo, esse meu querido amigo chinês que me proporcionou deliciosos manjares e risotas do mesmo calibre? Onde está o Nicola Monaco, siciliano que me apresentou os prazeres do Nero D’avola e me ensinou a degustar parmigiano com mel, numa tarde que nevava em Parma ao som de Diego el Cigala e Bebo Valdés – En la vida hay amores que nunca pueden olvidarse? Onde está o Gustavinho, exímio narrador do “show dji bola” e companhia inigualável de roadtrip – é o tic-tac do tempo, o toc-toc da bola, é fogo no aventáu do pasteleiro? Onde está a Maylo? E as Marias, Mancha, Rodriguez, e Europa? E a Mercedes? Onde está a Berta, vicina del mio cuore? E o Carlitos Ribes? Ou o Eloy?

A todos eles afiancei amizade eterna, repetidos reencontros, troca de correspondência assídua, e um sem fim de promessas que, à partida, nunca seriam cumpridas – e não foram. Só naquele momento de despedida, perdidos na envolvente narcótica de “Cuando un amigo se va, algo se muere en el alma”, é que nos recusámos a perceber essa evidente conclusão de mais uma etapa da vida - é tão difícil interiorizar o fim!
E esperamos. Em anseio esperamos que o tempo cure essa necessidade imediata de reviver esses bons momentos - e ele cura, lentamente. E àqueles que temos a sorte de rever, um dia mais tarde, reservamos a explosão de emoção e alegria. As memórias. As cumplicidades que se decifram apenas com dialecto ocular. Que perguntam “lembras-te?”. E alargados e coniventes sorrisos acompanham, em câmara lenta, um bom convívio de reencontro. E chega a maturidade da relação.


Até já Pião!

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Alfa Dominante


Lembro-me assiduamente de alguns documentários da BBC em que o Sir David Attenborough, inigualavelmente douto e de graça singular, explicava a interacção e organização das comunidades de animais. Sobre esse tema lembro-me de dezenas de programas. Desde espécies mais solitárias às mais sociáveis e hierarquicamente organizadas. Lembro-me dos macacos que vivem em comunidades grandes e de acordo com a idade, experiência e sobretudo força e pujança sexual, ocupam lugares de destaque e gozam de privilégios em relação aos elementos mais fracos. Lembro-me do Macho Alfa Dominante, termo utilizado pelos estudiosos destas matérias para designar aquele que tem mais poder sobre a comunidade, que ocupa o topo da cadeia comunitária, desenhada e aceite pela colectividade de forma hierárquica. Simplificando, aquele que pode cobrir a fêmea que lhe der na real telha. Aqui em Moçambique lembro-me muito do Macho Alfa Dominante. Também se falava da Fêmea Alfa Dominante, mas essa não me lembro – aqui não.
Enganem-se aqueles que pensam que a proximidade com a selva me aviva esse tipo de memórias videográficas. Não. Talvez isso tenha acontecido nas minhas poucas incursões pela savana. Mas aqui em Maputo a selva é outra e está repleta de machos Alfa Dominante.




O Macho Alfa Dominante em Maputo (MAD), é um hominídeo endémico de Portugal (pontualmente de África do Sul), caucasiano, porte médio, cavidade abdominal proeminente, dono e senhor de uma taxa de bazófia cobiçável, que padece (ou faz questão de) de um apetite sexual descontrolado, e facilmente identificável quando portador de apêndice peludo entre nariz e boca (também os há sem bigode). As vestes são de uma forma geral modestas e invariavelmente atentam às tendências do mundo da moda. Na maior parte dos casos usa calças de ganga e calça chinelinho de couro bem ao jeito do filho do criador – só no que toca ao calçado, claro. Cobre normalmente o tronco com camisa de tons claros e desabotoa os botões superiores dependendo da penugem no peito e do tamanho do ornato que traz ao pescoço – quanto maior menos botões apertados.
O MAD, julga de forma inocente ser o único em seu redor com característica Dominante. Mas MADs há muitos – é como os chapéus! Trata-se portanto de uma casta egocêntrica.
O MAD pode ser encontrado em diversos ambientes. Depende muito do à-vontade de cada um, do tempo de permanência na selva Maputense, da idade, do estado civil (em Portugal), e da responsabilidade profissional. No entanto, é de noite que se regista mais actividade do MAD e junto de locais onde a população feminina seja francamente entusiasmante (vulgo, fácil) para o sucesso da investida. O MAD genuíno não tem hora para caçar nem para aparecer – qualquer local e hora é ideal para apanhar uma fêmea mais distraída (entenda-se faminta, sem dinheiro ou um pouco mais ambiciosa).
O MAD nunca se mistura com os da sua própria raça - apenas para procriar. Pauta-se pela filosofia do “tudo que vier à rede é peixe” e não conhece (ou convence-se que não conhece) o fracasso. À semelhança dos seus primos símios vai saltando de galho em galho, cortejando o seu harém, fazendo-se sempre acompanhar da sua melhor e única arma – o metical, ou dólar para as moçoilas mais exigentes.
O ritual de corte não varia muito de MAD para MAD. Cada um com o seu estilo, caracteriza-se pela frontalidade da abordagem, superioridade, e taxa de sucesso absoluta. As relações nunca são em regime de exclusividade – o MAD preza-se polígamo – ainda que num primeiro contacto possa ser forçado a mentir sobre as suas intenções.
Após a conquista, o MAD passeia-se orgulhosamente, por toda a parte, de mão dada ao troféu. Para que todos vejam, vai distribuindo sorrisos, fitando com regozijo os transeuntes que ele julga invejosos e portanto concorrentes. Ao mesmo tempo, sem ter mãos a medir, reparte ameaças e propostas oculares às potenciais substitutas do troféu que ostenta naquele momento.


O MAD, apesar do seu comportamento olimpicamente ridículo e abominável, é uma classe respeitada e bem conservada, e por isso fora de perigo de extinção. Não é de admirar que os Portugueses não sejam vistos com bons olhos, seja pela comunidade estrangeira, seja sobretudo pela comunidade local.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Road to nowhere

É por vezes desconfortante a vulnerabilidade que a solidão me sujeita. Despersonaliza as minhas acções e ofusca os meus objectivos. O carácter, outrora bem definido, dilui-se na desconfiança que o meu ego gradualmente reconhece.
A ausência de estabilidade emocional proporciona-me profundos exercícios de valor e com eles largas horas de dúvida e desconsolo – nada corre como deveria correr.
E o tempo passa…
Não sei. Não faço a mínima ideia do que quero...
Este vácuo de sustento emocional faz-me perseguir e inventar cumplicidades em personagens que nada se assemelham à original. E insisto. E chego a acreditar! E logo caio. Tirem-me daqui! – Suplico às vezes, não sei bem a quem, na expectativa de encontrar uma solução geográfica para um problema de carácter intangível.
Esta concepção labiríntica da paixão desnorteia o caminho que, em longínquos momentos de lucidez, escolheria para mim. E para ti.
Não sei para onde vou… Ninguém sabe…
Troquei-te, justamente, por outra dimensão, por outra inspiração, égide de investidas mais ousadas. Por um colosso imaginário, esculpido apenas com as tuas virtudes, que me serve de orientação, por vezes falsa, no meu calvário emocional.
Doce… Amargo… Doce… Amargo… Eterna dicotomia que me obriga a degustar todos os paladares da vida. Sorrir, chorar, aprender, avançar, retroceder, evoluir. Viver!
É este barómetro emocional, quando em valores altamente acrimoniosos, que regista níveis de criatividade estonteantes e precipita-me em textos desconexos que só para mim constituem coerência.
Estou bem. Vivo bem. Não obstante, fazes-me falta.

video

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Alunagem

Versão audio, narrada por Miguel Guilherme para o programa da Antena 1 - Histórias Devidas.

Autor: António Ferreira Lobo

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Alunagem - The Jorge's Code

Fazia propósito de me explicar há mais tempo, aliás, pensei fazê-lo como texto introdutório deste memento electrónico. No entanto, à sombra do “faz para amanhã o que podes fazer hoje” que desde há muito é meu apanágio, fui protelando a inevitável explicação do título do meu blog.
Aproveito oportunamente o momento, seja pelas saudades que tenho da minha família, seja pelo confronto obrigatório com malogradas condutas de muitos que me rodeiam, para fazer chegar ao leitor o significado, para mim, de Alunagem.

Era primavera e corria o ano da graça de 1970 – assim introduz, propriamente, o texto que dá vida a mais uma, das muitas, pitorescas histórias que o meu Pai foi coleccionando ao longo da vida e felizmente vai partilhando com os mais próximos – precioso legado que orgulhosamente também vou compartindo com aqueles que julgo serem merecedores e que pauta as minhas deliberadas e inocentes asneiras na esperança de uma dia, acrescentar, com mestria semelhante, outros episódios no portfolio do meu progenitor. É portanto, este título, mais do que uma filosofia de vida um tributo ao meu Pai.
O assunto da ordem do dia, podia ser outro – o fim dos Beatles, a reorganização do partido do proletariado, especular sobre a saúde do ditador, a guerra fria, versar em jeito de homenagem póstuma a Almada negreiros, o “FêCêPiê”, enfim, àquela adiantada hora em que se tertuliava, ao sabor de outros sabores, naquele restaurante da urbe tripeira, havia pano para mangas. E o debate era autoritariamente moderado pelo Dr. Jorge que divagava displicentemente sobre a recente questão da alunagem.
Cada um aluna como gosta e como pode, sempre que pode – antecipava assim, o advogado da invicta, a conclusão do debate/monólogo. Frase de génio (dependendo da interpretação, claro)!

Eu pessoalmente associo a palavra a uma viagem planeada mas cheia de incertezas. Todos nós vamos alunando como gostamos e como podemos, sempre que podemos. E essa viagem não tem necessariamente que ser física – pode ser virtual, emocional, sensorial, etc. - sempre e quando nos aventuramos por caminhos que não dominamos totalmente. Eu por exemplo alunei aqui em Maputo. Já alunei noutras luas e cenários. Como pude! E há que saber lidar com as adversidades que surgem e sobretudo saber respeitar o espaço do próximo – só dessa forma a minha consciência me permite alunar como gosto, sempre que posso.
Maputo empresta solo a muitos astronautas que não sabem, ou não querem, alunar como manda o código – the Jorge’s code. Recusam-se a cumprir as regras mas condenam outros por semelhante incumprimento. Saltam valores e princípios básicos de co-habitação nesta lua que é Maputo. Doutos em hipocrisia são olimpicamente incoerentes nas suas acções e justificam-se com execranda verborreia que me entra por um ouvido a cem e apetece sair pela mão, certeira, a duzentos, mesmo na focinheira dessas pobres ratazanas. Não sabem alunar, saberão talvez aterrar, e mesmo assim muito mal.
Faço votos para que este pequeno parágrafo sirva de carapuça a esses eternos aspirantes a Neil Amstrong, e quem sabe, dependendo dos respectivos coeficientes de inteligência e bom senso, arrepiar caminho - Esse não é o caminho, e esses reles passos não farão de modo algum fazer saltar a humanidade (apenas o revés).

Posteriormente publicarei o podcast onde o notável e divertido Miguel Guilherme narra na íntegra o episódio que deu origem a este artigo, mais tarde publicado por Edições ASA em Histórias Devidas.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Sinabonani




As viagens ao fim-de-semana sucedem-se naturalmente, cada vez mais. A proximidade e multiplicidade de destinos raramente deixam espaço e tempo para o descanso (ou não) na capital. A surpresa e espanto, seja numa paisagem, num animal, numa praia, num novo amigo, num gesto, num repasto, ou num cheiro, começa a ser um hábito. E é essa agradável conotação banal das minhas últimas experiências que desculpa o descuido no registo electrónico.

Maputo é uma cidade relativamente grande. No entanto, a diferença de “castas” reduz a massa de habitantes a um círculo reduzido e restrito de pessoas, maioritariamente estrangeiros e Portugueses. E apesar de constituir uma ferramenta essencial de trabalho (bons contactos, fácil acesso a informação privilegiada, entreajuda profissional, vantagens comerciais, etc.) pesa no mesmo valor (inverso) pela falta de privacidade social. Maputo não é própria para incautos crónicos da flatulência – por outras palavras, não se pode dar um peido sem que o resto da comunidade saiba, comente e opine.
Na sua grande maioria, estes atentos repórteres da vida alheia, com promitente carreira num “24horas”, “o crime” ou pasquim de calibre semelhante, respiram a vida dos outros e fazem questão de a partilhar a quem estiver à mão de semear. De fazer inveja a muitos talk shows pós-prandiais “del corazón”, que eu tanto critico e abomino, a rapaziada do “diz que diz” vai aproveitando para se auto-promover através das fraquezas, na maior parte das vezes especuladas, dos seus amigos e conhecidos. É um exercício comum, odioso e perverso, com repercussões muitas vezes irreversíveis na promessa “life quality” que a capital indicia à chegada – talvez o maior defeito de Maputo (não dos Maputenses).

Enfim, será um bom objecto de reflexão para um próximo artigo. Servem apenas os últimos parágrafos para excluir alguns dos meus amigos, nomeadamente e sobretudo a companhia deste último fim-de-semana, da frívola classe que referi anteriormente.
O primeiro de Maio serviu de pretexto para um festival de reggae na Suazilândia. Não tanto pelo festival, mais libertino que liberal, e por isso um pouco fora do enquadramento da ordem do dia (1º de Maio), aproveitei a dica para viajar novamente até ao diminuto país vizinho, em boa companhia.
Chegamos com tempo suficiente para encontrar um alojamento para o fim-de-semana e fazer algumas compras de supermercado antes de entrar no recinto do espectáculo. De sublinhar a qualidade e variedade de produtos, por comparação a Moçambique, que encontramos naquele supermercado – senti-me como um miúdo africano no “toys r us” ou de regresso, por momentos, ao meu insubstituível pingo doce. As meninas aproveitaram para comprar adereços para entrar em apoteose no recinto festivo – um espécie de bandolete/coroa com luz intermitente, bem ao estilo de miss universo (versão pimba).
Ficamos alojados no Legends, um backpackers de baixo orçamento (vulgo, pardieiro) onde iríamos partilhar camarata e ressonâncias com mais sete pessoas (isto é, dez pessoas em cinco beliches). Enchemos a blusa com duas ou três sandochas cada um e seguimos para o “One Love Festival”.
As minhas expectativas não eram muito altas quanto à qualidade das bandas e talvez por isso tenha voltado a casa com surpresa positiva. Apesar de ter um grande apreço pelo seu impulsionador (ou talvez fundador) Bob Marley e alguns dos seus mais recentes seguidores (Patrice, Jason Mraz, Julian Marley, Manu Chao, etc.), o reggae não faz parte das minhas escolhas favoritas. Serviu por isso, também, para aprender alguns pormenores sobre o estilo musical e religião adjacente – Stolen from Africa, brought to America.
A casa (Old Greyhound Stadium, em pleno vale de Elzwini) estava a um terço da sua capacidade máxima. O ambiente era descontraído, por vezes demasiado, fruto do ritmo da música e dos estupefacientes consumidos compulsivamente pela grande maioria - indissociáveis da religião rastafari.
Depois de jantar e da retirada do casalinho paulista voltei a aproximar-me do palco. Recebi com surpresa a deliciosa actuação duma intérprete local, com quem mais tarde tive a oportunidade de privar e trocar algumas impressões. Depois disso ainda insistimos ficar mais mas o cansaço forçou-nos a recolher aos nossos precários aposentos (que naquela noite tiveram sabor de figo).
No dia seguinte acordámos quando acordámos. Sem hora marcada e sem plano bem definido.
Na Swazi existe um leque de actividades para preencher as horas vagas dos turistas. Nesse aspecto, e noutros também, está muito melhor preparada que Moçambique. Dos variadíssimos programas (rafting, caving, quad, game view, horse riding, etc.) optamos pelo Bike Safari – e foi tiro certeiro para animar a tarde de sábado. Infelizmente não tivemos a companhia do quinto elemento que, à luz da famigerada filosofia “amigo não empata amigo”, comungada pela totalidade do grupo, nos preteriu por um programa alternativo (we missed you, dulcinea del toboso).



Começamos a nossa tour, atrás do simpático guia “Sito” (em inglês gift, frisou) sem saber muito bem o que nos esperava. Partimos com a ajuda de todos os santos até chegar à primeira subida que anunciava a chegada da primeira aldeia. Assobiei por momentos o tema do “Verano Azul” mas ninguém acompanhou, talvez por desconhecimento, fruto da idade ou proveniência, ou simplesmente pela falta de fôlego. Lado a lado com o guia fui aprendendo e pondo em prática algumas palavras no dialecto local. Os nativos respondiam com orgulho e espanto aos meus cumprimentos recém-assimilados – fui despachando “Sinabonani” (how are you, segundo Sito) a todas as pessoas com que me cruzava. Depois de várias pedaladas demos entrada na reserva natural do vale de Elzwini onde o Sito nos fez uma pequena introdução ao nosso passeio. Soubemos alguns pormenores sobre a família real Swazi (costumes e rituais) e sobre o que poderíamos encontrar na reserva. De registar o adereço que cobre as vergonhas masculinas dos nativos – uma bola oca, com orifício à medida para o dito cujo – que deixou alguns dos presentes de boca bem aberta. O guia, ante a surpresa da Filipa pela dimensão do ornamento (muito semelhante a uma bola de golf e orifício de diâmetro impróprio para africano – não cabia o dedo mínimo) acrescentou que havia outros tamanhos com sorriso viril e orgulhoso.
O safari propriamente dito foi uma experiência excepcional. Para além de ser o meu primeiro, a proximidade que a bicicleta proporciona (ou obriga) com os habitantes do parque (veados, gnus, zebras, hipopótamos, crocodilos, javalis, etc.) deu um toque especial ao meu baptismo. Com o ameaçar do crepúsculo, regressámos em marcha “presto” sob pena de não enxergar o caminho de volta.
O jantar foi no Malandela’s. Tiramos a barriga de miséria com um bom naco de vitela, amparado por um shiraz sul-africano, enquanto recordávamos a fresca experiência da tarde. Aproveitei para verter águas, pela segunda vez, onde outrora o Jimmy Carter deu o ar da sua graça (ver artigo “nós passamos, mais ninguém passou). A soirée seguiu-se no hostel no mesmo registo do jantar. Tivemos ainda a companhia de um norueguês que passou e ficou. Acabou por ser o centro das atenções, quer pelo figurão, quer pelos temas absurdos e surreais, quer pela pelo jeitinho propositadamente “maricôncio” (presumo que, na expectativa de encontrar afinidade com algum dos presentes).
No domingo partimos, sem pressa, para Maputo. A meio da viagem fizemos um desvio, ainda na Suazilândia, que daria lugar ao meu segundo safari. Entramos noutra reserva natural, desta feita na expectativa de encontrar o rei da selva. Apesar de não descortinarmos nenhum felino valeu pelo encontro com alguns portentosos rinocerontes.
Continuamos para Maputo, com pausa obrigatória e prolongada na fronteira, bem ao estilo Moçambicano. Cheguei à capital com mais uma excelente experiência no palmarés e somei algumas cumplicidades que vão cimentando a amizade que tenho por aqueles que me acompanharam (tks).

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Perder a honra e alguns vinténs

A vida corre e o tempo não se fica atrás. Os que olham a morte como inevitável derrota, vêem no tempo o maior inimigo, respeitosamente odiado. Eu, comum mortal, não fujo à regra e dou por mim, no tempo, a divagar sobre esse fiel e imortal companheiro. O exercício, pode ser curto como este parágrafo mas grande como a vontade de o fazer travar e termina invariavelmente sem conclusão mas com certezas quase absolutas. No entretanto (ou entretempo) vou lembrando canções que servem de banda sonora e ao mesmo tempo ajudam meu raciocínio: ouço alguns que imploram que volte atrás; outros que nele se escondem porque dizem que tem asas; alguém que suplica ao relógio para se deter receando que vida se apague; outros tantos que se questionam e queixam da mesma forma e acabo por concluir, de forma simples, imaginando o Pablo Milanés – El tiempo pasa, nos vamos poniendo viejos.. (na versão da Mercedes Soza). A cadência do Chronos nem sempre é a mesma, umas vezes mais insensível porque não nos deixa saborear o momento como pretendíamos, outras vezes arrasta-se, faz dos minutos horas e das horas faz dias. Mas apenas ele, o tempo, caminha para a eternidade, nós não.
Tenho a sensação de estar em Moçambique há bastante tempo, muito embora me faltem alguns dias para completar apenas três meses. Vão dizendo que a distância é o olvido e eu tão-pouco concebo essa razão. E lá vem à baila, inevitavelmente, a saudade. Essa impiedosa vulnerabilidade que a condição humana e distância nos sujeita. Sinto falta da minha família, muito. Dos meus amigos também. É com essa consciência nostálgica e imbuído no espírito fraterno que recordo uma tertúlia passada.
Passeávamos pela cidade num dos mata-sogras dele - nome pelo qual, o Vico, designa os bólides de baixo orçamento da família - a falar de tudo um pouco. Corria o tempo em que a experiência sexual de cada um podia fazer uma diferença quase de pai para filho, ainda que a desigualdade de idades fosse mínima. Talvez por esses dois motivos batíamos vagarosamente a urbe flaviense de “cu tremido” a falar de gajas. Onde o Vico, mais velho, tomava as rédeas do assunto e aconselhava-me até onde a experiência lhe permitia (Bons tempos).
À passagem pelo municipal de Chaves (glorioso estádio do desportivo) o tema girou cento e oitenta graus e passou a dissertar-se sobre o conceito de amizade. Nem todos os amigos se consideram da mesma maneira, aliás a maior parte desse pessoal não passam de conhecidos para mim – dizia o meu amigo, explicando por outras palavras a hierarquia da amizade. A escala começa no pior inimigo, passa pela “persona non grata”, o indiferente, o conhecido, o amigo e culmina nos verdadeiros amigos - no máximo um punhado de compinchas avaliados em jeito de top five.
Sem dar mão da palavra passou a explicar a diferença entre o amigo e o verdadeiro amigo. Utilizou-me como exemplo e eu retribuí com agrado e com sensação de “special one”. Eu gosto muito dos meus amigos – dizia - mas por ti, por ti perdia a honra*.
Precisamente por não ter aplicado na íntegra a referida expressão (perder a honra), eu assustei-me por breves segundos, pondo em causa a sexualidade do meu amigo e a minha integridade física dentro daquele mata-sogras. Rapidamente, e tendo em conta os relatos da conversa anterior, percebi que aquilo era um verdadeiro elogio. Aliás, perder a honra, era como que a prova máxima na escala da benquerença. Neste sistema de medida, perder a honra é mais bravio que dar a própria vida.
Até hoje utilizo esse sistema “métrico” e não imagino outro mais perfeito.
Finda a história deixo um grande abraço de saudades. Sinto a vossa falta e sentirei até que a vida (ou a honra) nos separe.
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*Algum tempo depois deste episódio ouvi um dos amigos do meu pai a utilizar a mesma expressão, um pouco mais elaborada e catastrófica obrigando o protagonista a perder a honra e grande parte do seu património. E usada em situações mais banais e de forma um pouco leviana fruto da idade, experiência e falta de amor ao corpo. Era fim de uma tarde de sábado e o protagonista rematava com a seguinte frase – isto agora para acabar em beleza, eram umas sardinhas com pimentos assados! Dava o cú e três tostões!